sexta-feira, 7 de maio de 2010

Silencio

O livro tinha uns contornos marcados a preto, uns quadrados que o passado me relembra como se os esboçasse agora. Cheguei a fazer desenhos e a ter um quadro, desenhado de uma loucura transparente, nesse tempo. Avisou-me baixinho que o perceberia, da mesma forma, que por qualquer motivo, já o tinha visto na perspicácia de um laço que nos sustenta à distancia. 

Deixei de acreditar na força da identificação, pelo lugar sombrio onde é falada, como uma orquestra banal de instrumentos renovados, pombos anunciados e vazios. Vejo-a antes no silencio decidido, no direito à vergonha e orgulho, no lamber baixinho das feridas que corroem por dentro, se saradas de brilho e mentira, são mais uma ilusão, apenas.

Acredito no silencio falado, nas horas que passamos, rodeados de livros e, ambos sabemos, ambas falamos com os mesmos olhos, de um brilho individualista, conquistado, magoado e orgulhosamente não dito. Semeamos os gestos desnivelados, um esgar envergonhado pela ignorância, jogamos sinais ao vento que passa, nos parcos momentos em que nos falta força. Acredito na ajuda do silencio, distei nela o espaço entre viver e entender o que por dentro me falava há tanto tempo, acredito no tempo consolidado.
As palavras fogem-me da vontade, desagarro-me.  Desejo o plancton que brilha, anseio silencio por ora. Aquela cor sai-me da garganta em sopros que não palavras, nem sinais de fumo, são um respirar que não pede licença, é uma essencia qualquer, a minha alma que sente.

Este livro, é como um compromisso, uma aria de orgulho, um testemunho que vale mil palavras. Li nele as viagens, os atrasos, o tempo é agora, nos olhos baços que escrevo, é a saudade gritante nos contornos da terra, é um sombra brilhante que me lembra cada sonho, e eu sonho ainda, sonharei sempre.

4 comentários:

  1. Fazes bem, não sonhar é morrer mais cedo :)

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  2. Olá MILHITA,
    O silêncio é, por vezes, mais esclarecedor que um fluxo de palavras.
    Saudações Cordiais.
    J

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